quarta-feira, 1 de julho de 2009

O guardião das Letras

A Seu Evilásio (in memorian)

Entrei na graduação da UFBA em 1998 e ele já estava lá, na porta do ILUFBA, a meio caminho de Tebas com seus livros-enigmas, lançando o desafio aos transeuntes por meio das capas duras das edições luxuosas da Aguillar: “decifra-os ou devoram-te!”. A Esfinge sabe-se guardiã de caminhos que só existem na sola dos pés dos viajantes... Seu Evilásio também sabia-se, sob sua alegria soturna, tal qual um gárgula, guardião de templos e de tempos.

Hoje, recebi a notícia da morte de Seu Evilásio que já andava bastante doente. Confesso que me entristeci, pois desconfio que, às vezes, até mais que vender os livros, ele adorava conversar sobre eles com uma intimidade de quem os punha no colo toda noite a niná-los com histórias lidas de outros e de outros e de outros livros, tecendo mil e uma noites de sonhos para cada página.

Nestes 11 anos de convivência com Seu Evilásio, como carinhosamente o chamava, entre cheques pré-datados e aquisições de livros em confiança “para pagar depois”, erigi minha muralha indestrutível e intransponível com simples blocos de papel.

Apenas a voz deste homem continua, ainda agora, tonitruante, a assombrar minha fortaleza, ao apontar para as fissuras que ainda há nas paredes:
“você já viu a coleção nova que saiu?...”

5 comentários:

LÍVIA NATÁLIA disse...

Muito Bonito...
Ele deve ter levado uns livros pra ler para os anjinhos dormirem...


Senti muito.

Eliéte disse...

Triste também fiquei ao saber da morte de Seu Evilário através deste post. Como você disse, "ele não só vendia livros", era parte também do Instituto de Letras. A gente se reconhece em um (ou se apropria de um) espaço a partir das coisas e das pessoas que formam o lugar. Assim, acredito que Seu Evilásio levou um pouco de nossa identificação com o Instituto de Letras, construída nesses onze anos.

Ana Claudia Pantoja disse...

Mas veja, poucos podem se gabar de ter tido um trabalho tão sensacional quanto o dele: nobre, essencial, trasnsformador. Ele entra no céu com crédito a perder de vista. Muita paz para o Seu Evilário.

aeronauta disse...

Não o conheci, mas senti os olhos molhados ao ler esse seu texto... tão humano.

salvador-rio de janeiro disse...

só soube agora pelo seu texto. fiquei muito triste. sandro