quinta-feira, 26 de março de 2009

Reles-ato biográfico ou "Onde os fracos não têm vez"

Acho que por pudor nunca contei a ninguém a história a seguir, que hoje confio, em segredo, a você, leitor. Eu briguei uma vez na escola. Sim, é verdade. Sei que, especialmente para os que me conhecem, parece meio inverossímil, mas acredite em mim, apesar de mesmo eu, talvez por vergonha em excesso, ainda duvidar de minhas lembranças que me descrevem como um Rocky Balboa, como um Jean-Claude Van Damme, como um Jaspion (meu herói japonês predileto) contra as forças de Apolo, de Bolo Young, de Satangôs...
Ri sozinho esta noite, ao lembrar-me não sei se do ridículo da briga, muito distante da construção grandiloquente no parágrafo anterior ou da vergonha desta mancha em meu currículo escolar, agora, quase, ilibado. Para as mentes mais férteis que aguardam a narração de guerras épicas a la Homero, ou as contendas monumentais presentes nos bons filmes do Ridley Scott, ou ainda os efeitos especiais high tech da batalha entre Neo e Sr. Smith (Matrix), lamento decepcioná-los: a briga, longe da crueza e tenacidade de qualquer Pulp Fiction, faria rir o personagem insólito do programa baiano Na Mira que, quando evocado pelo apresentador, grita: “Socorro, meu Deus, eu não quero morrer”.
Tudo, absolutamente tudo, não passou de um empurrão. Xingado por um colega mais velho e muito mais experiente em questões de pelejas, irritado até o último limite, o atingi de forma certeira e o deixei desnorteado, já que nem ele, nem ninguém na turma, esperava a minha reação em plena sala (quando a professora de matemática saiu para fazer não sei o quê): -É a sua mãe! -falei com a entonação de um vate e a coragem de quem sabia que não seria agredido em plena sala. Passado o primeiro momento de surpresa, também fui golpeado pelo imprevisto: -Te pego na saída, ao que retruquei “mentirosamente”: - Não tenho medo de você.
Resultado: a notícia da briga se espalhou, os estudantes do colégio em que estudava e dos colégios próximos saíram todos para aguardar a batalha no fim das aulas e, quando ia embora e olhei sem ver meu oponente, sorri aliviado, achando-me livre... Ledo engano, pois ele, feroz, aguardava-me na esquina onde a concentração da platéia era maior. Meus amigos, prevendo o que aconteceria comigo, o convenceram de que eu, sequer, me constituía um adversário a altura: tomei um empurrão e depois, ignorado pelo meu adversário, fui para casa, feliz por não ter apanhado, mas ensaiando diretos de direita, jabs e ganchos, para que em minhas batalhas imaginárias, impávido, como Muhamed Ali, todos, depois daquele dia, temessem os meus punhos de aço.

Aviso:
Esta confissão se autodestruirá em 10 segundos, portanto, pode ser que ela não esteja aqui, quando você vier visitar-me outra vez: 9, 8, 7, 6, 5...

3 comentários:

aeronauta disse...

Ainda bem que deu tempo de eu ler essa história lírica, lindamente ingênua, e que me enterneceu tanto...

aeronauta disse...

Tem uma surpresa pra você lá no aeronauta. Abraços.

maria guimarães sampaio disse...

e por conta de Aero eu vim aqui. E gostei!