sexta-feira, 15 de maio de 2009

Perpétua

Entre a lucidez intermitente
e o abismo onírico sem fim,
a insônia é o cárcere sem grades
que aprisiona o homem
por dentro...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Notivagações ou Palavra ex-cripta

Enquanto a mente madrugada
aguarda...
Embora o papel já saiba,
o autor sequer desconfia
do que (ou)virá na página

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O céu de Ícaro ou o mar de Ulisses?

“O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu...” (?)
Paralamas do Sucesso


-Ulisses, você é um covarde! - diz Ícaro, anjo gauche caído, frente a frente com seu adversário.
-Como? – retruca Odisseu, em tom desdenhoso.
-COVARDE! – repete enfaticamente Ícaro.

O rei de Ítaca sequer digna-se a respondê-lo. Acredita-se invulnerável a tamanha afronta ao evocar em seu pensamento a grandeza do seu reino, bem como seu feito hercúleo em Tróia, quando com um cavalo de madeira, seu artifício, fez dobrar as muralhas intransponíveis... No sabor do silêncio que só os nobres podem degustar, recorda-se do desafio a Poseidon e das desventuras passadas para retornar a Ítaca, mas conclui: consegui.

Ícaro, ante a soberba do adversário, o ultima:
- Rei de terras invisíveis, de certezas épicas naugrafadas em versos rijos por um aedo imaginário que te inventou... Prisioneiro ingênuo de um cárcere cíclico: jamais saístes de Ítaca, por isso tens a fraca ilusão de que retornastes. Tolo!

Intrigado, Ulisses teme ver ruir o templo em que se erigiu seu trono e mostra-se, agora, atingido por seu interlocutor:
-Por que dizes isto? Que te fiz?
-Aprisionastes o Ocidente a uma nau norteada por sonhos de retorno, de saudades, por receio de perder-se e refazer-se noutros reinos. Em ti nasce o medo que busca a ancoragem vã da comodidade cotidiana, em vez da deriva. Em ti, apenas certeza, só, sempre, o mesmo...
-Verme suicida. Que valor tem tuas asas frágeis, rotas? Que fez tu dos conselhos de Dédalo já que no ludismo inconsequente de querer aproximar-se mais e mais do sol, pôs-te tudo a perder? – gargalha Ulisses, crendo ter ferido ainda mais seu oponente.


-Caro Odisseu, nunca verás o que meus olhos, hoje cegos pelo sol viram, ainda que por um instante, porque tua covardia só te permite navegar por águas demarcadas pela certeza náutica de rotas conhecidas... Apesar de minhas asas frágeis, tua nau é que sempre fora de cera e teu reino, nunca exposto, estivera por todo tempo submerso, pois te curvastes aos deuses para cumprir a sina pedagógica das epopéias em tua ânsia de retorno... Tua história, sem o canto do bardo invisível, teria sim a exata dimensão da paralisia de suas in-ações, herói trôpego de glórias imaginadas por um velho inexistente...

-Dá-me então tuas asas de cera! – suplica então Ulisses.

-Não são as asas que proporcionam o vôo, majestade – diz, circunspecto Ícaro -, mas o desejo que não se constrói apenas com mãos de artífice, é preciso da coragem suicida de utilizar-se de asas sensíveis a força térmica do sol, para que ainda que se faça um único vôo, se possa traçar outras rotas mesmo que o abismo esteja sempre próximo. Quando tiveres força suficiente, apenas fazes do teu mar espelho do meu céu, e erra por entre as vagas que quiserem te afogar como quem busca fôlego para sobreviver, aí voarás.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Derivações

Hoje, cultivo aquela sensação de quem corre até o ar não mais caber nos pulmões, para ter o prazer de ver o meu corpo arfante, caído, ser emoldurado pela areia da praia, enquanto contemplo o céu e ouço apenas o sussurro das ondas.

Hoje, tenho toda a pressa do mundo, não para chegar, mas para ficar à deriva, tal qual Pessoa em sua imprecisão lírica (Navegar é preciso, viver não é preciso): cisão náutica da morte pelo tempo, cisão da vida tal qual nau precisa orientada pelo vento.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Penélope

Na manta em que,
noturna,
me teces,
fio,
nó a nó,
o meu retorno.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Dulcência

Aos meus queridos discentes

Tornei-me professor por um erro etimológico: achei que a palavra docência vinha de doce, da essência do “ser doce”... Viciado em chocolate e outras guloseimas açucaradas, abandonei os computadores e conduzi a minha vida em busca desse sabor. Sabor que às vezes dilui-se um pouco na rotina acadêmica entre tantas tarefas que me afasta, diabeticamente, do que sempre leva minha glicemia às alturas, sem, no entanto, nunca me fazer mal: a sala de aula...

domingo, 12 de abril de 2009

Amnésio

A ????????

Filha de Urano e Gaia, Mnemosine é a deusa da memória, aquela que preserva os seres do esquecimento (acho que é isso, se me recordo bem)... Se a lembrança é uma dádiva, em demasia, ela torna-se um mal, pois a hipermemória destrói qualquer possibilidade de convivência social, uma vez que o recordar contínuo põe a nu a própria fraqueza e as fraquezas alheias. Por outro lado, a ausência completa de lembranças, ou a incapacidade de armazená-las, também configura-se como outro problema não menos grave... Eis aí a minha punição mítica: a hipomemória. Já fui a médicos, já fiz exercícios específicos pra reforçar a minha capacidade para lembrar, já comprei uma agenda (mas sempre me esqueço de anotar as coisas e pior: me esqueço de consultá-la), já me desesperei com isso, mas, com o tempo, descobri que esse mal traz desvantagens, mas também muitas benesses... Ao mesmo tempo em que não me lembro das rotas no trânsito (canso de sair e esquecer para onde vou), de onde coloquei as chaves (acho que esse objeto deveria ser extinto da face da terra, em face de sua capacidade de ocultar-se), a carteira, as meias etc, também esqueço-me facilmente das ofensas, de coisas ruins, dos motivos que desencadearam brigas (minha esposa diverte-se quando algumas horas depois de alguma discussão, eu sorrio, começo a brincar e depois pergunto a ela: - acho que havíamos brigado, eu estava zangado com você, qual foi o motivo mesmo? óbvio que depois disso rimos e eu dificilmente recordo outra vez o que realmente aconteceu)...

Ah! tentei por exemplo escrever este texto algumas vezes, mas advinhe: sempre me esquecia quando sentava-me em frente ao computador...

Filho bastardo da deusa Mnemosine, sigo com meus esquecimentos constantes... Aliás, o que era mesmo que eu ia colocar aqui no fim do texto?