sexta-feira, 1 de maio de 2009

O céu de Ícaro ou o mar de Ulisses?

“O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu...” (?)
Paralamas do Sucesso


-Ulisses, você é um covarde! - diz Ícaro, anjo gauche caído, frente a frente com seu adversário.
-Como? – retruca Odisseu, em tom desdenhoso.
-COVARDE! – repete enfaticamente Ícaro.

O rei de Ítaca sequer digna-se a respondê-lo. Acredita-se invulnerável a tamanha afronta ao evocar em seu pensamento a grandeza do seu reino, bem como seu feito hercúleo em Tróia, quando com um cavalo de madeira, seu artifício, fez dobrar as muralhas intransponíveis... No sabor do silêncio que só os nobres podem degustar, recorda-se do desafio a Poseidon e das desventuras passadas para retornar a Ítaca, mas conclui: consegui.

Ícaro, ante a soberba do adversário, o ultima:
- Rei de terras invisíveis, de certezas épicas naugrafadas em versos rijos por um aedo imaginário que te inventou... Prisioneiro ingênuo de um cárcere cíclico: jamais saístes de Ítaca, por isso tens a fraca ilusão de que retornastes. Tolo!

Intrigado, Ulisses teme ver ruir o templo em que se erigiu seu trono e mostra-se, agora, atingido por seu interlocutor:
-Por que dizes isto? Que te fiz?
-Aprisionastes o Ocidente a uma nau norteada por sonhos de retorno, de saudades, por receio de perder-se e refazer-se noutros reinos. Em ti nasce o medo que busca a ancoragem vã da comodidade cotidiana, em vez da deriva. Em ti, apenas certeza, só, sempre, o mesmo...
-Verme suicida. Que valor tem tuas asas frágeis, rotas? Que fez tu dos conselhos de Dédalo já que no ludismo inconsequente de querer aproximar-se mais e mais do sol, pôs-te tudo a perder? – gargalha Ulisses, crendo ter ferido ainda mais seu oponente.


-Caro Odisseu, nunca verás o que meus olhos, hoje cegos pelo sol viram, ainda que por um instante, porque tua covardia só te permite navegar por águas demarcadas pela certeza náutica de rotas conhecidas... Apesar de minhas asas frágeis, tua nau é que sempre fora de cera e teu reino, nunca exposto, estivera por todo tempo submerso, pois te curvastes aos deuses para cumprir a sina pedagógica das epopéias em tua ânsia de retorno... Tua história, sem o canto do bardo invisível, teria sim a exata dimensão da paralisia de suas in-ações, herói trôpego de glórias imaginadas por um velho inexistente...

-Dá-me então tuas asas de cera! – suplica então Ulisses.

-Não são as asas que proporcionam o vôo, majestade – diz, circunspecto Ícaro -, mas o desejo que não se constrói apenas com mãos de artífice, é preciso da coragem suicida de utilizar-se de asas sensíveis a força térmica do sol, para que ainda que se faça um único vôo, se possa traçar outras rotas mesmo que o abismo esteja sempre próximo. Quando tiveres força suficiente, apenas fazes do teu mar espelho do meu céu, e erra por entre as vagas que quiserem te afogar como quem busca fôlego para sobreviver, aí voarás.

2 comentários:

Ana Claudia Pantoja disse...

Escolhei o dois. Mar e céu se encontram naquela linha distante, no horizonte que não chega nunca, mas que está sempre lá, esperando ansioso o olhar do sonhador.

LÍVIA NATÁLIA disse...

Para além do labirinto de paredes ferozes ou de água bela e descolorida, onde tudo é de um azul extremo e igual, estou aqui, em sereia delicada ou vento aberto de céu rajado de nuvens. Amparando quando as asas derreterem e guiando, em ondas macias, seu caminho...